Integração zero


Por Martha Ferreira (*)    
28 de June de 2010
O primeiro plano multimodal de transportes, concebido pelo engenheiro militar Eduardo Moraes, em 1869, previa a integração entre a navegação fluvial, cabotagem, ferrovias e portos do Rio de Janeiro, Salvador e Recife. Na década de 20, Washington Luiz decidiu que governar era construir estradas e, nas décadas de 50 e 60, essa opção equivocada se consolidou com a implantação da indústria automobilística, por Juscelino Kubitschek, e foi ratificada pela visão do regime militar de que conectividade rodoviária era sinônimo de segurança nacional. Estava sacramentada a opção por rodovias.
A estagnação econômica, resultado da crise do petróleo, em 70 e da chamada década perdida, em 80, reduziu drasticamente os recursos para infra-estrutura e o governo federal transferiu essa responsabilidade para estados e municípios. Foi o começo do sucateamento de rodovias, ferrovias, aeroportos e portos, desmantelando o embrião da multimodalidade de transportes, a nível nacional.

Passou a existir, então, uma dependência excessiva do transporte rodoviário, tornando-o responsável por 70% das cargas gerais do Brasil. Nos Estados Unidos, essa participação é de 26%; Austrália, 24%; e China, 8%. A malha rodoviária brasileira tem 1.6 milhão de km, a 3ª mais extensa do planeta. Entretanto, é 10 vezes menor do que a americana, 03 vezes pior que a russa e mata quase 30 mil pessoas por ano.

Minério de ferro e carvão representam 80% dos produtos brasileiros transportados por ferrovia. Mas, o Brasil tem usufruído muito pouco as vantagens comparativas desse modal, que é o mais apropriado para países com nossas dimensões continentais, e um elemento estratégico para sua união territorial.

Nossas companhias aéreas estão à margem das principais rotas mundiais de negócios e turismo e a inserção brasileira nesse mercado é de pequena expressão. O país não está aproveitando a facilidade com que o modal aéreo vence obstáculos naturais, com maior rapidez e menores danos ambientais.

O Brasil possui um potencial aquaviário quase inexplorado, com 40 mil km de rios navegáveis, 7 mil km de costa marítima e forte potencial para cabotagem. Os portos são responsáveis pela movimentação de 77% do nosso comércio internacional, mas ainda assim, somos lanterninha no ranking de qualidade portuária, ocupando a 123ª posição, entre 134 países.

Nossa prioridade máxima é investir em infra-estrutura para transportes, reduzir sua carga tributária, punir severamente a corrupção e criar um plano de integração entre os modais, que elimine o isolamento de algumas regiões.

O Brasil está sofrendo graves perdas em competitividade, quando confrontado com nossos principais concorrentes. E, com as estimativas de crescimento do país, toda a economia pode ficar travada pelo iminente apagão deste setor.
____________________ (*) Martha E. Ferreira é economista e consultora de negócios