O ralo dos impostos



O ralo dos impostos
Autor(es): Marcelo Sakate
Veja - 14/05/2012

Um estudo revela que o Brasil perde um PIB por década em decorrência dos tributos elevados e dos gastos públicos ruins. Com reformas, o país poderia crescer 6% ao ano.

A cada 100 reais produzidos na economia brasileira, o governo fica com 36 reais na forma de impostos. Poucos países possuem uma tributação dessa magnitude. As exceções são as ricas economias europeias. Na Noruega, a carga tributária chega a 43% do PIB, mas a renda per capita no país é de 97 000 dólares. Não é esse o caso do Brasil, onde a renda mal ultrapassa 11000 dólares (21400 reais) e os serviços prestados pelo governo à sociedade estão a anos-luz do padrão escandinavo. Um novo estudo expõe com nitidez rara o desperdício de riquezas em decorrência do binômio formado pela carga tributária pesada e pelo gasto público de má qualidade. De acordo com cálculos do economista Paulo Rabello de Castro, um dos coordenadores do Movimento Brasil Eficiente, essa combinação viciosa faz o país perder o equivalente a um produto interno bruto (PIB) a cada dez anos. Segundo ele, trata-se de um custo para a sociedade superior ao dos juros elevados ou do real valorizado, os dois fatores frequentemente apontados como causa da perda de competitividade da indústria nacional. O peso dos impostos e a ineficiência pública minam a produtividade e corroem o potencial de crescimento. Colocando a equação em números, cada aumento de 1 ponto porcentual na carga tributária reduz o crescimento em 0,5 ponto porcentual.

O estudo, encomendado por lideranças empresariais, propõe um conjunto de medidas a ser implantadas gradualmente, para reduzir a asfixia imposta pelo governo aos empreendedores privados. O pano de fundo é estimular a produção nacional a partir de um ganho de eficiência do setor público, em vez de se preocupar apenas com os incentivos à demanda. “O agravamento da crise internacional vai contribuir para que o governo e a sociedade percebam a necessidade de um novo modelo. Ficou evidente o esgotamento da atual política baseada no estímulo ao consumo”, diz Rabello de Castro. Trata-se de uma avaliação cada vez mais consensual, que é o tema do livro Além da Euforia . Uma das principais recomendações do estudo é a criação de um conselho fiscal, atendendo a uma determinação da Lei de Responsabilidade Fiscal até hoje não cumprida. Esse comitê, formado por representantes do estado e da sociedade, teria a missão de elaborar normas para aumentar a eficiência e a transparência no uso dos recursos — mecanismo adotado em muitos outros países, como a Inglaterra, onde a iniciativa coube ao primeiro-ministro, David Cameron. A lista de propostas prevê lei para limitar o aumento das despesas em relação ao crescimento do PIB. Outra ideia é constituir um fundo de investimento em infraestrutura usando parte do dinheiro consumido atualmente com os juros das dívidas estaduais e municipais.
As ações abririam caminho para redução gradual da carga tributária dos atuais 36% para o equivalente a 30% do PIB até 2022. Isso ocorreria por meio do controle nos gastos e também pela simplificação da cobrança, uniformizando por exemplo, as alíquotas do imposto sobre circulação de mercadorias e serviços (ICMS). A adoção das medidas elevaria o potencial de crescimento do país dos atuais 3,5% para 6% ao ano até 2022. Nesse cenário, a renda per capita saltaria para 33 200 reais, aproximando o Brasil dos países mais avançados do Leste Europeu. Se nada for feito, o avanço na renda dos brasileiros será bem mais modesto.