O Brasil se descola...

...do planeta. A recessão volta a rondar os EUA e a Europa. Por aqui, o risco é de superaquecimento

     A última sexta-feira demonstrou exemplarmente o descompasso entre a saúde da economia do Brasil e a dos países ricos. No mesmo dia em que o governo brasileiro divulgou números que revelaram um crescimento de 4,2% no PIB do primeiro trimestre deste ano, dados do mercado de trabalho americano reforçaram os temores de que um segundo mergulho rumo à recessão (o temido double dip, em inglês) esteja a caminho na maior economia do mundo. Os Estados Unidos e as potências econômicas da Europa, com a honrosa exceção da Alemanha, arrastam-se há três anos em uma crise que parece refluir apenas quando recebem injeções de dinheiro dos bancos centrais. Já foram literalmente impressos trilhões de dólares em estímulos econômicos e no resgate de bancos falidos, mas a economia das nações ricas não dá sinais de que consiga ficar de pé sem liquidez adicional. Nos Estados Unidos, a taxa de desemprego foi a 9,1% - mais que o dobro da de 2007.

     Está-se diante de um ciclo vicioso. A perspectiva de recessão faz com que os europeus e os americanos ainda empregados cortem gastos. Ato contínuo, as empresas reduzem investimentos. Se não for quebrado, esse ciclo levará à estagnação. Até agora, o socorro dos governos evitou o pior cenário, que seria uma depressão atroz, como a da década de 30. A ajuda veio à custa do aumento das dívidas públicas a patamares insustentáveis. Esta seria a hora de fazer cortes orçamentários, enquanto a economia caminharia com as próprias pernas. Seria. Os mercados, porém, estão dando sinais claros de que o medo não cedeu.
 
     Em uma irônica inversão de valores, nessas horas de aperto os países emergentes aparecem como porto seguro e atraente para os investimentos dos ricos. O Brasil é um caso típico dessa situação. Aqui, o consumo das famílias cresce há trinta trimestres consecutivos. São pessoas que primeiro trocaram seus eletrodomésticos, depois compraram celulares e computadores, financiaram o seu primeiro carro. Agora buscam a casa própria. As possibilidades de negócios atraem o capital externo, que deverá alcançar o patamar recorde de 137 bilhões de dólares até o fim do ano. Diz Irene Mia, da Economist Intelligence Unit: “Mesmo com o aumento dos juros, o Brasil deverá manter uma taxa de crescimento ao redor de 5% nos próximos anos”. Não é uma China, mas é suficiente para fazer inveja a europeus e americanos.

 Marcelo Sakate